Essa
história estava muito mal contada. Ele nunca estivera num boteco infecto. Nunca
ficara num banquinho escondido lá no fundo do balcão, bebendo rabo-de-galo,
esperando por uma mulher que nunca chegava. Muito pelo contrário. Freqüentara a
boca do luxo, era recebido como um príncipe no La Licorne, se envolvera com
mulheres que dariam tudo, se é que não deram, para tirá-lo da noite e levá-lo,
se não ao altar, pelo menos a uma quitinete no Edifício Copan. Nunca bebeu
rabo-de-galo, quer dizer, lembrava apenas de uma vez, quando foi parar num
cortiço lá pelos lados dos Campos Elíseos, visitando uma tia às portas da
morte, e não pode recusar a bebida, oferecida pela prima, motivo real da
visita, com quem acabou passando a noite num drive-in na avenida do Estado. Na
verdade ele não abria mão do champanhe, nas noites em que a roda de pôquer, lá
no Glicério, lhe era generosa. Como quando um dos jogadores fechou uma quadra
de ás e ele, numa daquelas jogadas impossíveis de fim de noite, encheu a mão e
a alma com um street flash até rei, e ainda por cima de ouros. Naquela
madrugada as meninas do La Licorne, em volta da sua mesa, se afogaram numa
outra dama francesa, La Grande Dame...
Esse
idiota que está contando esta história não sabe nada da minha história, eu é
que sou o personagem, ele não sabe nada do que está contando, acho melhor parar
com isso, eu não vou aceitar essa avacalhação com a minha imagem, com
rabo-de-galo num boteco infecto, esperando por uma mulher que não vem, como se
eu precisasse disso, eu, o príncipe do La LIcorne...
Ouviu
o papel sendo arrancado da máquina, com raiva. O que será que está acontecendo?
Sentiu o papel sendo amassado. Espera aí, vamos conversar. Também não sou
intransigente. Para com isso..
O
papel virou uma bolota. Ele sentiu sufocar, sem espaço, como se seu mundo
estivesse acabando. Teve a sensação de que estava voando. Em seguida parou,
como se batesse em algo sólido. Dentro da bolota de papel, sufocando, sem
espaço, sem boteco, sem balcão, sem champanhe, nem sequer um rabo-de-galo, pode
ouvir o que, para ele, soou como uma sentença de morte:
Não
sei o que fazer com esse personagem. Não rendeu. Amanhã acabo com ele...