sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Aqueles olhos verdes




Se ele soubesse o que viria depois teria parado antes. Bem antes.

Tudo começou quando Jolene, “meu pai chamava João e minha mãe chamava Marlene”, ela sempre se apressava em explicar, pediu um cigarro, “aceso, por favor”. Ele estava num inferninho, lá pelos lados da rua Vitória, e nunca tinha visto Jolene, ou Jô, como passou a chamá-la, naquele lugar. Loira de olhos verdes, boca carnuda ressaltada pelo batom excessivamente vermelho, um leve e encantador sotaque nordestino. E os seios que, embora pequenos, se faziam notar, ao arfarem, atrevidos, como se pontuassem o pedido, “aceso, por favor”.

Contou que nascera no Recife, que seus olhos verdes eram de origem holandesa, não, não das invasões holandesas, mas de seu pai, que não era João, era Johann, de Amsterdam, que se apaixonou por sua mãe, entre um frevo e outro, num carnaval que passou, que seu sonho era conhecer a terra de seu pai, estava juntando dinheiro pra isso, que viera para São Paulo porque achava mais fácil juntar dinheiro aqui, afinal aqui é que estava o dinheiro.

Foram parar num daqueles hotéis decadentes da Duque de Caxias, onde passaram a noite falando da vida, quer dizer, só ela falava, e ele não cansava de ouvir aquele encantador sotaque nordestino. Não fizeram sexo, pelo menos aquilo que o senso comum entende por fazer sexo, pois ouvi-la falando, com aquele sotaque encantador, era mais do que fazer sexo. Aquela boca vermelha, aqueles olhos verdes, aqueles pequenos seios arfantes. E aquela voz, aquele sotaque, falando só pra ele, não importa o quê, “aceso, por favor”.

Se apaixonou perdidamente, loucamente, desesperadamente. Repetiram aquela noite durante toda a semana. Toda noite. Às vezes nem entravam no inferninho onde se conheceram. Iam direto para o hotel suspeito. E passavam a madrugada fazendo aquele tipo de sexo que só eles entendiam, feito de sussurros, olhares, seios arfantes, boca vermelha, olhos verdes. E aquele sotaque, “meu Deus, não posso mais viver sem isso...”.

Prometeu que ela nunca mais teria que ganhar a vida naquele inferninho. Prometeu realizar seu sonho. Prometeu largar tudo e levá-la para Amsterdam, onde ela faria sucesso em boates elegantes, com aqueles olhos holandeses e aquele irresistível sotaque como se cantasse um frevo. Ele não sabia mais viver sem aqueles olhos verdes, aqueles pequenos seios arfantes, aquela boca vermelha falando, falando, falando...

Dizem que Jolene foi para Veneza com um nobre italiano, cinqüenta anos mais velho...

No cabaré, alguém canta “aqueles olhos verdes”... ele imagina um leve sotaque nordestino. Pede mais um fernet e um cigarro ao garçom.
Aceso, por favor...

sábado, 15 de dezembro de 2018

Jane Roliúde




Seu nome de batismo era Jayne. Em homenagem a Jayne Mansfield, a exuberante atriz de Hollywood que sua mãe adorava. Seu pai não gostou muito do nome, mal sabia pronunciá-lo, chamava-a de Jane. E essa confusão com seu nome se repetiu pela vida. Ela sempre corrigia: “Meu nome é Jayne, não Jane. De Jayne Mansfield, sabe...” E contava a história da paixão de sua mãe pela atriz e de como seu pai, ignorante, deturpou nome tão lindo.

Em um certo momento da vida, lá pelos 18, 19 anos, quando se tornou uma das mais requisitadas dançarinas do Avenida Danças, lá na esquina da Rio Branco com a Aurora, era conhecida como Jane Roliúde.

O Avenida era um “taxi-dancing”, instituição muito comum na Boca do Lixo nos anos 1950, em que moças, na maioria das vezes vindo da periferia, ou do interior de São Paulo, dançavam com os freqüentadores mediante o pagamento de uma módica quantia em dinheiro. Só que o pagamento  não era feito diretamente a elas. Cada freqüentador tinha um cartão que elas picotavam a cada dança concedida.

Jane Rolíude não era exuberante como a musa que inspirou seu nome. Não tinha os seios fartos da atriz. Jane, ou melhor, Jayne, era magra, mignon, de cabelos oxigenados, olhos verdes, e uma extraordinária meiguice no rosto infantil. Era essa meiguice, acho eu, que atraia os homens. E ao mesmo tempo os afastava, pois era por demais etérea para a insensibilidade masculina, ainda mais daqueles homens que procuravam uma dançarina de aluguel.

Jane Roliúde reinou por um bom tempo no Avenida Danças. Quem freqüentou o lugar naqueles anos quase inocentes com certeza lembrará dela. Até o dia em que Jane sumiu. Sem aviso, sem motivo aparente, sem notícia, sem até logo. Sem despedida.

Dizem que Jane foi atrás de um cafajeste por quem se apaixonou perdidamente. Dizem que, como bom cafajeste, ele a largou em algum lugar perdido entre um bolero e outro. Dizem que Jane ficou louca, e perambulava pelas ruas do centro da cidade, oferecendo uma dança, importunando os transeuntes. Dizem tanta coisa! Jane Roliúde virou mais uma das lendas da Boca do Lixo.

Um dia, numa das madrugadas da vida, lá pelos lados da Major Sertório, achei que vi Jane. Me aproximei. Chamei-a de Jayne. Ela abriu um imenso sorriso no rosto infantil. Me ofereceu uma dança. Não tive coragem. Covarde, coloquei uma nota de dinheiro em suas mãos, que seguravam ainda um daqueles cartões picotados.

Deixei Jayne dançando com um parceiro imaginário. Etérea, suave, com aqueles olhos verdes e aquela inconfundível meiguice no rosto ainda infantil.

Nunca mais a vi.