domingo, 26 de agosto de 2018

História triste de Natal com cachorro e final feliz

Comprou um cachorro. Ou melhor, adotou um (ele era politicamente correto). Não iria ficar sozinho. E não queria mais nenhum ser humano. Ou ser humana (ele era politicamente correto). Seu último amor destroçara seu coração. Partira sem uma palavra, sem um motivo, sem assunto. E ainda levara sua tartaruga, Dulcinéia, companheira há mais de cem anos. Não, definitivamente, não iria ficar sozinho. Colocou no carrocho, quer dizer, cachorro, o mesmo nome da sua amada tartaruga, Dulcinéia, embora o cachorro fosse macho. Nestes tempos de profusão de gêneros, pensou ele, tanto faz. O cachorro não vai se importar.
Parece que não se importou mesmo. Dulcinéia, um alegre glücklicher springender hund alemão, vivia feliz e saltitante pelos gramados do bairro onde morava, flertando com cats and dogs. Um dia, ou melhor, uma noite, pois era noite de Natal, Dulcinéia não voltou para casa na hora de costume. Aprígio Augusto, esse era seu nome, a princípio não se preocupou. Dulcinéia deveria estar ainda no parque, na festa do amigo secreto, ou secret friend, como diziam os modernos daquele bairro emergente. Gugu, como Aprígio Augusto era tratado pelos seus raros amigos, cada vez mais raros, saiu caminhando lentamente pela rua arborizada que levava ao parque, na esperança de encontrar Dulcinéia voltando para casa. Não encontrou.
Foi de casa em casa. Era muito bem recebido. Ofereciam-lhe uma taça de prosseco. Uma fatia de panetone. Quem sabe um peito de peru?... Não, não, não. Tudo o que ele queria era sua Dulcinéia. Quer dizer, seu. Ninguém sabia dela. Ou dele. Vai saber... Alguém a(o) levara? Será? Aquele alegre e saltitante glücklicher springender hund alemão (daqui pra frente tratado apenas por alemão, pois escrever esse nome completo requer uma destreza que eu não tenho) era uma tentação de tão lindo, alegre e saltitante.
Passaram-se os dias, semanas, anos, nunca mais Gugu viu Dulcinéia. Dizem que ela, ou ele (não vou mais fazer essa ressalva de gênero, mesmo porque a história já esta no fim e acho que não é politicamente correto) partiu num navio cargueiro para Berlim, lavando porão, em busca de suas origens. Dizem que as vezes ele tem saudades de Gugu, da boa vida, da neighborhood, como diziam seus vizinhos modernos daquele bairro emergente.

Hoje, nas noites de Natal, Gugu ainda lembra de Dulcinéia. E acaricia seu controle remoto da Netflix, onde assiste a filmes fofos com cachorros, enquanto saboreia uma sopa de tartaruga (afinal, ele percebeu que ser  politicamente correto não leva a nada).

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