Comprou um cachorro. Ou melhor, adotou um (ele era
politicamente correto). Não iria ficar sozinho. E não queria mais nenhum ser
humano. Ou ser humana (ele era politicamente correto). Seu último amor
destroçara seu coração. Partira sem uma palavra, sem um motivo, sem assunto. E
ainda levara sua tartaruga, Dulcinéia, companheira há mais de cem anos. Não, definitivamente,
não iria ficar sozinho. Colocou no carrocho, quer dizer, cachorro, o mesmo nome
da sua amada tartaruga, Dulcinéia, embora o cachorro fosse macho. Nestes tempos
de profusão de gêneros, pensou ele, tanto faz. O cachorro não vai se importar.
Parece que não se importou mesmo. Dulcinéia, um alegre glücklicher
springender hund alemão, vivia feliz e saltitante pelos gramados do bairro onde
morava, flertando com cats and dogs. Um dia, ou melhor, uma noite, pois era
noite de Natal, Dulcinéia não voltou para casa na hora de costume. Aprígio
Augusto, esse era seu nome, a princípio não se preocupou. Dulcinéia deveria
estar ainda no parque, na festa do amigo secreto, ou secret friend, como diziam
os modernos daquele bairro emergente. Gugu, como Aprígio Augusto era tratado
pelos seus raros amigos, cada vez mais raros, saiu caminhando lentamente pela
rua arborizada que levava ao parque, na esperança de encontrar Dulcinéia
voltando para casa. Não encontrou.
Foi de casa em casa. Era muito bem recebido. Ofereciam-lhe
uma taça de prosseco. Uma fatia de panetone. Quem sabe um peito de peru?...
Não, não, não. Tudo o que ele queria era sua Dulcinéia. Quer dizer, seu.
Ninguém sabia dela. Ou dele. Vai saber... Alguém a(o) levara? Será? Aquele
alegre e saltitante glücklicher springender hund alemão (daqui pra frente
tratado apenas por alemão, pois escrever esse nome completo requer uma destreza
que eu não tenho) era uma tentação de tão lindo, alegre e saltitante.
Passaram-se os dias, semanas, anos, nunca mais Gugu viu
Dulcinéia. Dizem que ela, ou ele (não vou mais fazer essa ressalva de gênero,
mesmo porque a história já esta no fim e acho que não é politicamente correto)
partiu num navio cargueiro para Berlim, lavando porão, em busca de suas
origens. Dizem que as vezes ele tem saudades de Gugu, da boa vida, da
neighborhood, como diziam seus vizinhos modernos daquele bairro emergente.
Hoje, nas noites de Natal, Gugu ainda lembra de Dulcinéia. E
acaricia seu controle remoto da Netflix, onde assiste a filmes fofos com cachorros,
enquanto saboreia uma sopa de tartaruga (afinal, ele percebeu que ser politicamente correto não leva a nada).
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