Seu
nome de batismo era Jayne. Em homenagem a Jayne Mansfield, a exuberante atriz
de Hollywood que sua mãe adorava. Seu pai não gostou muito do nome, mal sabia
pronunciá-lo, chamava-a de Jane. E essa confusão com seu nome se repetiu pela
vida. Ela sempre corrigia: “Meu nome é Jayne, não Jane. De Jayne Mansfield,
sabe...” E contava a história da paixão de sua mãe pela atriz e de como seu
pai, ignorante, deturpou nome tão lindo.
Em
um certo momento da vida, lá pelos 18, 19 anos, quando se tornou uma das mais
requisitadas dançarinas do Avenida Danças, lá na esquina da Rio Branco com a
Aurora, era conhecida como Jane Roliúde.
O
Avenida era um “taxi-dancing”, instituição muito comum na Boca do Lixo nos anos
1950, em que moças, na maioria das vezes vindo da periferia, ou do interior de
São Paulo, dançavam com os freqüentadores mediante o pagamento de uma módica quantia
em dinheiro. Só que o pagamento não era
feito diretamente a elas. Cada freqüentador tinha um cartão que elas picotavam
a cada dança concedida.
Jane
Rolíude não era exuberante como a musa que inspirou seu nome. Não tinha os
seios fartos da atriz. Jane, ou melhor, Jayne, era magra, mignon, de cabelos
oxigenados, olhos verdes, e uma extraordinária meiguice no rosto infantil. Era
essa meiguice, acho eu, que atraia os homens. E ao mesmo tempo os afastava,
pois era por demais etérea para a insensibilidade masculina, ainda mais
daqueles homens que procuravam uma dançarina de aluguel.
Jane
Roliúde reinou por um bom tempo no Avenida Danças. Quem freqüentou o lugar
naqueles anos quase inocentes com certeza lembrará dela. Até o dia em que Jane
sumiu. Sem aviso, sem motivo aparente, sem notícia, sem até logo. Sem
despedida.
Dizem
que Jane foi atrás de um cafajeste por quem se apaixonou perdidamente. Dizem
que, como bom cafajeste, ele a largou em algum lugar perdido entre um bolero e
outro. Dizem que Jane ficou louca, e perambulava pelas ruas do centro da
cidade, oferecendo uma dança, importunando os transeuntes. Dizem tanta coisa!
Jane Roliúde virou mais uma das lendas da Boca do Lixo.
Um
dia, numa das madrugadas da vida, lá pelos lados da Major Sertório, achei que
vi Jane. Me aproximei. Chamei-a de Jayne. Ela abriu um imenso sorriso no rosto
infantil. Me ofereceu uma dança. Não tive coragem. Covarde, coloquei uma nota
de dinheiro em suas mãos, que seguravam ainda um daqueles cartões picotados.
Deixei
Jayne dançando com um parceiro imaginário. Etérea, suave, com aqueles olhos
verdes e aquela inconfundível meiguice no rosto ainda infantil.
Nunca
mais a vi.
Sensível. Delicado.
ResponderExcluirParabéns.
Obrigado, querida!
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